Gil

Gil
Ciumento
Débil
Febril
Andando pela ponte,
Olhando os transeuntes,
Viu Clarice
aos beijos com Pedro, seu tio.
Engoliu seco.
E Não acreditando no que via,
Ajeitou-se em cima da ponte,
Virou uma estrelinha
E, num grande salto ornamental,
De cabeça para baixo,
Foi consumido pelo rio.






Bruno Estevam

Vinha vindo com vinho

Ele vinha vindo
Com uma taça de vinho tinto
Ele vinha vindo
Galante
Caminhava
vinha vindo
Com a taça de vinho tinto
Foi bebendo, bebendo
e Sorrindo.
Bebia o vinho tinto
enquanto vinha vindo
Ele vinha
Bebendo tinto.
Ele vinha ouvindo
as pessoas rindo
enquanto bebia
seu vinhozinho tinto.
Bebendo vinha
ele tinha vindo
Antes já tinha bebido
e continuava bebendo
enquanto vinha.
Ele estava bebendo
E nada mais via
Só ouvia o povo rindo
porém 
ele sorri
Ainda com a taça de vinho tinto.



Bruno Estevam

Face fria do travesseiro

Ar frio,
ar fresco.
Assobio do vento.
Nuvens pretas eu vejo.
Ajeito-me.
Viro o travesseiro.
Aperto-o.
De modo que fique do meu jeito.
A parte quente para baixo.
E a face fria em meu queixo.
Fico imóvel.
Deitado.
Enrolado.
Só desejo.






Bruno Estevam

Sobre a vida




Nossa senhora!
Um pensamento me veio de repente
Por que a vida é transitória 
E a morte permanente?












Bruno Estevam

Domingo quadrado


O Domingo é um chato discreto, ocioso e pré-determinado. Além de tudo é tradicional.
Domingo bom é aquele que você se esquece dele, que você se mexe, se diverte. O Domingo é o chato que se preocupa antecipadamente. É inseguro. Preguiçoso.

O Domingo é o único dia que você sabe como vai ser e ainda tem a opção de fazer diferente. 
Domingo é desafio. Domingo é questão de saber enfeitar. O Sábado surpreende. O domingo, nem sempre.

Domingo. Domingo. Domingo. Cronometrado. Parecido. Monótono. Medido.

Domingo não é dia de Nascer. Domingo não é dia de morrer. Organizar velório Segunda feira, cá entre nós, é a MORTE!
Domingo não se sobe. Domingo não se desce.
Domingo é tudo igual. Domingo a gente esquece.
No Domingo não se casa. Domingo não se desquita.
Domingo é quadrado. Domingo se medita.
Domingo é adiamento.
Domingo é igual.
Domingo é pontual.
Até para se atrasar.




Bruno Estevam

Tentando entender

Vivo tentando tirar o tempo do lugar
Reviver o que já foi vivido
Recuperar o que  foi perdido
Ouvir novamente o que já foi dito.

Eu vivo tentando entender
Pra que, meu deus ?
Pra que nascer
Viver e morrer ?





Bruno Estevam

Poesia


A poesia 
Ela está nas bolinhas do pijama
Na chuva que derrama
Na queda da bituca

Está na tristeza
Também na beleza
Na doçura do suco
No amargo da fruta


Poesia é amor
É rotina
É horror

Poesia é a variação ligeira
É a folha do eucalipto
É o leite da seringueira

Poesia é o cheiro da prostituta
O desejo da freira
Poesia é coisa séria
Ou também é besteira.




Bruno Estevam