poesia perdida

poesia perdida
onde lhe perdi?
me veio assim
tão fácil
porém
não a escrevi.
apareça qualquer hora!
pois prometo que lhe faço
nem que seja com uma bic
e um guardanapo 
de boteco.



Bruno Estevam

Dicotomia



vida
uma constante dicotomia
quanto mais eu vivo
mais de mim se distancia.





Bruno Estevam

Sinestesia Natural

momento no tempo
tato e sentimento
apreciação da beleza natural
efêmera
 transitória
do vento 

manobra marrom
feita no ar
movimentação intata
terra com água
cheiro de chuva
imensas nuvens carregadas

Cinza e branco
tempo frio
vento rústico
céu em pranto
som acústico




Bruno Estevam

teus santos

não engane
                aos prantos
                                  teus santos
                                          enquanto rezas
                                          chorando
                                                      pois
                                                       eles estão
                                      te observando
                                                      e nem 
                                       puxe o manto
                         enquanto
pecar aos cantos.





Bruno Estevam

Conselho

 mulheres
 tenham fé
 aproveitem
 chorem menos
 chupem mais
 chupem muitos
 picolés.



Bruno Estevam

Fábrica de estrelas

O fim de tarde
é bonito de se ver
é quando 
dissolve-se
o sol
as nuvens
expandem-se
os raios ultravioletas
apagam-se
abaixa-se o farol natural
secam-se as roupas
no varal
as estrelas 
ascendem-se
e no céu
fixam-se.

Imagine que trabalheira
pintar uma por uma
desenhar ponto 
a ponto
brilho por brilho
seleciona-las
separa-las
e acende-las
no céu.


Bruno Estevam



Oitavo mundo

No oitavo mundo paralelo
o martelo é pontiagudo
o prego tem cabo amarelo
as princesas são barbudas
africanos amarelos

No oitavo mundo paralelo
não existe verão
só inverno
quando chove
chove livros
ou folhas de caderno

Lá, no oitavo mundo paralelo
leite é feito de cana
vacas andam de chinelo,
lá é tudo muito estranho
as mães brincam de boneca
os filhos que as chamam para o banho

No oitavo mundo paralelo
os chinelos perdem as pessoas
e não as pessoas que perdem os chinelos

Lá, o vento é colorido
toda terra é macia
nas casas de família
os cachorros pagam as contas
os donos comem na bacia

Lá só anda na rua quem é louco
os hospícios só para quem é são
os carros trocam de donos
aviões na contra-mão

No oitavo mundo paralelo
as pessoas nascem em caixão
quando morrem, vão para a barriga

No oitavo mundo paralelo
os ponteiros não trabalham em círculo
mas na horizontal
letras compram lotes
em folhas de jornais

lá, cobertas acordam tarde
as luzes dormem com as pessoas apagadas
os sofás assistem filmes
juntinhos, no escuro, com as almofadas

No oitavo mundo paralelo
os terrenos trabalham e dizem:
''vou comprar o dono que eu quero''


Bruno Estevam




Banhos longos

Banhos longos
Sabonetes emendados
movimentos circulares
de espuma
na barriga
voltas longas
e voltas curtas
umbigo ensaboado
com sabonete de frutas
banho longo
cabeça para cima
olhos fechados
água na cara
sem respirar
me afogo.



Bruno Estevam

Fim

Quisera eu
que as coisas
fossem do meu jeito
porém
o fim 
não foi feito 
para ser aceito.




Bruno Estevam

Bateu


Estava ele
Na maciota
manobrando
trabalhando, normalmente
cantando
como todos os dias do ano
até Alcides tirar o pé do freio
num alavanco bruto do motor
Alcides dá no meio!
no meio de outro carro,
parado.
Alcides a mercê
quebrado!
fodido e mal pago!
Alcides, que fiasco
O que aconteceu?
Que merda, Alcides, bateu?
Bateu.
Mas o carro é de quem, Alcides?
Do velho de gravata
De cabelo acaju
Que velho, Alcides?
Que gravata ? Acaju?
Puta que o pariu, Alcides!
Aquele velho, amigo do berê, lembra?
Mas quem é o dono Alcides? Que diabos!
Porra, Alcides. E agora?
Não sei, ué, bateu.






Bruno Estevam

Gil

Gil
Ciumento
Débil
Febril
Andando pela ponte,
Olhando os transeuntes,
Viu Clarice
aos beijos com Pedro, seu tio.
Engoliu seco.
E Não acreditando no que via,
Ajeitou-se em cima da ponte,
Virou uma estrelinha
E, num grande salto ornamental,
De cabeça para baixo,
Foi consumido pelo rio.






Bruno Estevam

Vinha vindo com vinho

Ele vinha vindo
Com uma taça de vinho tinto
Ele vinha vindo
Galante
Caminhava
vinha vindo
Com a taça de vinho tinto
Foi bebendo, bebendo
e Sorrindo.
Bebia o vinho tinto
enquanto vinha vindo
Ele vinha
Bebendo tinto.
Ele vinha ouvindo
as pessoas rindo
enquanto bebia
seu vinhozinho tinto.
Bebendo vinha
ele tinha vindo
Antes já tinha bebido
e continuava bebendo
enquanto vinha.
Ele estava bebendo
E nada mais via
Só ouvia o povo rindo
porém 
ele sorri
Ainda com a taça de vinho tinto.



Bruno Estevam

Face fria do travesseiro

Ar frio,
ar fresco.
Assobio do vento.
Nuvens pretas eu vejo.
Ajeito-me.
Viro o travesseiro.
Aperto-o.
De modo que fique do meu jeito.
A parte quente para baixo.
E a face fria em meu queixo.
Fico imóvel.
Deitado.
Enrolado.
Só desejo.






Bruno Estevam

Sobre a vida




Nossa senhora!
Um pensamento me veio de repente
Por que a vida é transitória 
E a morte permanente?












Bruno Estevam

Domingo quadrado


O Domingo é um chato discreto, ocioso e pré-determinado. Além de tudo é tradicional.
Domingo bom é aquele que você se esquece dele, que você se mexe, se diverte. O Domingo é o chato que se preocupa antecipadamente. É inseguro. Preguiçoso.

O Domingo é o único dia que você sabe como vai ser e ainda tem a opção de fazer diferente. 
Domingo é desafio. Domingo é questão de saber enfeitar. O Sábado surpreende. O domingo, nem sempre.

Domingo. Domingo. Domingo. Cronometrado. Parecido. Monótono. Medido.

Domingo não é dia de Nascer. Domingo não é dia de morrer. Organizar velório Segunda feira, cá entre nós, é a MORTE!
Domingo não se sobe. Domingo não se desce.
Domingo é tudo igual. Domingo a gente esquece.
No Domingo não se casa. Domingo não se desquita.
Domingo é quadrado. Domingo se medita.
Domingo é adiamento.
Domingo é igual.
Domingo é pontual.
Até para se atrasar.




Bruno Estevam

Tentando entender

Vivo tentando tirar o tempo do lugar
Reviver o que já foi vivido
Recuperar o que  foi perdido
Ouvir novamente o que já foi dito.

Eu vivo tentando entender
Pra que, meu deus ?
Pra que nascer
Viver e morrer ?





Bruno Estevam

Poesia


A poesia 
Ela está nas bolinhas do pijama
Na chuva que derrama
Na queda da bituca

Está na tristeza
Também na beleza
Na doçura do suco
No amargo da fruta


Poesia é amor
É rotina
É horror

Poesia é a variação ligeira
É a folha do eucalipto
É o leite da seringueira

Poesia é o cheiro da prostituta
O desejo da freira
Poesia é coisa séria
Ou também é besteira.




Bruno Estevam

Breve - Haikai

Existo breve
Tão breve
como um boneco de neve.


Bruno Estevan

Simples

Singelo sorriso
sorriso singelo
tão simples
tão necessário
como as correias de um chinelo.


Bruno Estevam

Saudade

Sabonete no cabelo
Cabelo no sabonete
que falta você me faz
meu coração dói pra cacete.


Bruno Estevam

Vasto Vento

Vasto vento
Vento que leva toda sujeira
Vento que corta a cachoeira
Vento que leva o cisco
Vento que corta o pingo
Vento vasto vento
Vento que eu sinto
Sinto chegar
Sinto no corpo
Vento
Vasto vento
Vento que tira a areia do cimento
Vento vasto
Vento que penteia o pasto
Vento que dá vida á areia
Vento que espalha
Vento que semeia.


Bruno Estevam

Coração regressivo


Coração que bate bate bate bate bate
coração que bate bate bate bate
Coração que bate bate bate
Coração que bate bate
Coração que bate
Coração que
Coração.




Bruno Estevam

Inverso



Não me esqueço do dia
que o papel sentou na cadeira
perto d'uma lareira
para escrever uns versos.





Bruno Estevam

Intenso


Amor intenso
coração partido
olhos no lenço
nariz torcido


Bruno Estevam


Madrugada


Abro a geladeira
Mexo no fogão
Parece fome, mas é solidão.



Bruno Estevam

Solidão por metro quadrado


Sinto-me num quadro
sozinho,sentado,pensante
mas porque diabos estou aqui?
E todo mundo sempre muito bem lá fora ?
sorrisos, valsas, coitos
eu aqui dentro, pareço um doido.

Queria eu, poder pular a janela
e nunca mais voltar a morar
naquele mesmo lugar
onde vi vários fins de outono
e assisti a primavera chegar.

Preciso sair por ai
sem rumo
fazer a mesma rota
Que a fumaça faz 
quando sai do fumo.
sair
bem devagarinho 
imperceptível
sutil
com aquele meu casaquinho
que minha mãe me deu
para eu sair no frio.

Quero andar pela cidade
sentir a manobra da brisa fria
preciso sair, viu ?

A monotonia matou a liberdade
e a jogou num quarto sozinha
só com a cama
a cômoda
o cheiro de cigarro
e uns discos de vinil.





Bruno Estevam

O mistério de Rubens


Nélia, era casada com Rubens, tinham um casamento morno, na cama juntos, só para dormir. Apesar do casamento não ter mais o encanto que tinha na juventude, Rubens nunca traiu a esposa. Rubens, homem calmo, procurava não discutir com a mulher, pois Nélia tinha um gênio terrível.  Casados há mais de 15 anos, o tempo foi passou e apagou a brasa no relacionamento do casal.

Nélia, sempre foi mais rude que o marido, tinha mania de imposição, era uma mulher extremamente brava. 
     
O bairro todo do Méier comentava que Rubens era corno, até que certo dia ele resolveu fazer algumas perguntas a sua esposa:

Rubens: O nélia, o povo ai da vila ta com uma conversa besta, cê ta sabendo ?

Nélia: Oxe, que conversa besta homem? Eu lá sou mulher de ficar de papo furado com gente desocupada, Rubens? Vá se catar!

Apesar das grosserias, Rubens acreditava no caráter da esposa.

 Rubens: Ta certa! esse povo não tem o que fazer mesmo. Vou é comer meus bolinhos que ganho mais. 

Rubens amava bolinhos de trigo, comia uma caixa por dia. Os bolinhos eram como essas rosquinhas açucaradas, as preferidas dos policiais obesos dos filmes de Hollywood. Mas era só bolinho de trigo mesmo, um simples bolinho carioca e gorduroso.

Nélia não fazia nada, mas dizia de boca cheia que era dona de casa. Rubens trabalhava de vigia noturno numa empresa de reciclagem no Flamengo. A vida de Rubens era uma rotina, chegava de manhã, comia um pacote de bolinho e ia dormir. Era de lei, chegar, comer bolinho e dormir. 

Acontece que Rubens estava começando a desconfiar de algo que considerava estranho: O sumiço de alguns bolinhos.
Durante uma semana, Rubens deixava os bolinhos contados na geladeira, chegava pela manhã e percebia que faltavam alguns bolinhos.

Certo dia Rubens chega e a caixa de bolinho estava vazia. Não hesitou em perguntar para a esposa:

- Ô nélia, o que está acontecendo com meus bolinhos? Você anda comendo? Nunca comeu desses bolinhos, pois você detesta!

- Ah Rubens, pelo amor de Deus, está contando bolinho agora? Não basta ser um mongolóide em casa, agora depois de velho vai contar bolinhos ? Esse seu serviço deve estar te deixando maluco, louco de pedra!

Por ser um homem muito calmo e compreensivo, Rubens acabava sendo convencido pelos argumentos da mulher. Era facilmente dobrado por Nélia.

Embora tenha cedido aos argumentos da mulher, Rubens ainda contava os bolinhos e ainda havia diferença nas contagens.

Certo dia  Rubens resolve sair duas horas mais cedo do trabalho, estava determinado a contar os bolinhos duas horas mais cedo.

Rubens encosta seu Passat 87 discretamente na frente de sua casa. Desce do carro e entra em silêncio em seu quintal. A porta dos fundos estava entreaberta. Ouvia uns cochichos dentro da casa. Quando entra em casa, vê uma calcinha embolada num pepino. A mesa estava completamente bagunçada. 

Rubens caminha em direção ao quarto, abre a porta devagar e se depara com Nélia, completamente nua, beijando sutilmente a barriga do amante. Rubens chuta a porta.

Amélia: Meu Deus, Rubens!???????????????????

Rubens: Cale a boca, égua!

O amante se levanta rapidamente e completamente nu, se afasta, como se fosse se preparar para pular janela. Rubens tira um revolver 38 da cintura, se aproxima do amante, e com o cano da arma apontado para a testa do homem, diz:


- Então você é o filho da puta que anda comendo meus bolinhos?






Bruno Estevam