CASAMENTO SEM AMANTE

No espelho, Luis Alberto arruma sua gravata, tudo deve ficar bem alinhado, detalhe por detalhe, da gravata aos sapatos, ilustradíssimos por sinal. Luis, com seus 35 anos, homem vistoso, boa pinta, educado, um sujeito patriarcal. Trata sua esposa como uma rainha, mesmo após dez anos de casamento, é um maridaço, leva até café da manhã na cama. Dora, sua esposa, não tem do que reclamar do parceiro.

Luis trabalha em um banco em São Paulo, sempre foi um funcionário competente, dá o máximo pela empresa e também, dá uns pegas na secretária, a Regina. Quando acaba o expediente Luis vai para o motel com a ‘’Re’, nome carinhoso no qual ele a chama. Essa é a vida de Luis, acordar cedo, dar cafezinho para esposa, beijinho na testa dos filhos, alinhar gravata, engraxar sapato, pentear cabelo e trabalhar, lindo e cheiroso, todos os dias.

Durante uma bela tarde de sexta feira, Luis trabalhava, muito animado, caminhava pelos corredores do escritório com um puta sorriso no rosto. Seus colegas até comentam dando um tapinha em suas costas:

- Eita Luis, nunca vi um homem que trabalha feliz como você, rapaz! Ta louco!

Luis soltava  gargalhadas. Enquanto ria, conversava com os amigos e trocava a tinta da copiadora.  Não parava nem por decreto. Ansiosíssimo, mal podia esperar para devorar o corpo da secretária no Motel.

Já era 17:00, o fim do expediente era as 17:30, Luis perambulava o escritório todo trabalhando, até que em uma de suas caminhadinhas pelo escritório, ele vê Regina tomando água no bebedouro. A mocinha parecia nervosa, com um vestidinho social, extremamente discreto, esfregava as mãos umas nas outras.

- Luis, preciso trocar uma palavrinha com você...
Luis via na face da mocinha que coisa boa não era. Aproximou-se da amante para ouvir o que ela tinha a lhe dizer.

- Pode falar, minha flor.
- Não vai mais rolar... Perdoe-me.  Não vou conseguir. Estou gostando de um rapaz lá da faculdade.

Ouvir aquelas palavras foi como um soco na cara. Todo o sorriso que carregara em seu rosto sumiu em fração de segundos. Toda a alegria, tinha sido fuzliada friamente pelo amor que Regina revelara sentir pelo rapazinho. Luis nem tinha palavras para respondê-la. Balançou a cabeça vagarosamente e saiu, sem pressa, parecia estar raciocinando ainda o que  acabara de ouvir.
Fim de expediente, Luis saiu quieto, não desejou nem “um bom final de semana’’ para nenhum de seus colegas, como de costume. Retirou-se do escritório de cabeça baixa, parecia que havia perdido o emprego. Sem motel, sem Regina, sem fantasias, sem humor, Luis ia direto para casa.

Chegando em casa sua esposa lhe recebe com um amplo sorriso no rosto:
- Boa noite meu amor, como foi o dia hein? Chegou mais cedo...
- Bem
- Tudo bem mesmo, meu bem? Parece desanimado.
- Tudo

Em silêncio, Luis tira suas roupas e as deixa no chão. Coisa que jamais faria. Não suportava bagunça. Uma vez um médico lhe disse que sofria de ataxofobia. A esposa observava com estranhamento o comportamento do marido, que nunca foi desorganizado, nem quieto.

 Semanas se passam e Luis continuava triste, desgostoso. Não aceitava do fato de ter perdido uma mulher para um molecote de 18, 19 anos. Para ele, era o fim da picada.
Em casa, Luis continuava tristonho e desleixado, não se arrumava como antes, os banhos passaram a ser curtos, não usava mais perfumes e penteava o cabelo de qualquer jeito.
Não procurava mais a esposa a noite. Nem sexo o homem tinha pique para fazer. Pobre Luis. Estava vegetando.

Antes de dormir, Dora que não aguentava mais o comportamento do marido, resmunga:

- Eu preferia você quando tinha uma amante. Desgraçada, acabou com meu casamento!
Deitado de costas para a esposa, com os olhos esbugalhados ele responde:
- Dora ? O que você disse?

- Boa noite, meu bem !



Bruno Estevam