Conselho

 mulheres
 tenham fé
 aproveitem
 chorem menos
 chupem mais
 chupem muitos
 picolés.



Bruno Estevam

Fábrica de estrelas

O fim de tarde
é bonito de se ver
é quando 
dissolve-se
o sol
as nuvens
expandem-se
os raios ultravioletas
apagam-se
abaixa-se o farol natural
secam-se as roupas
no varal
as estrelas 
ascendem-se
e no céu
fixam-se.

Imagine que trabalheira
pintar uma por uma
desenhar ponto 
a ponto
brilho por brilho
seleciona-las
separa-las
e acende-las
no céu.


Bruno Estevam



Oitavo mundo

No oitavo mundo paralelo
o martelo é pontiagudo
o prego tem cabo amarelo
as princesas são barbudas
africanos amarelos

No oitavo mundo paralelo
não existe verão
só inverno
quando chove
chove livros
ou folhas de caderno

Lá, no oitavo mundo paralelo
leite é feito de cana
vacas andam de chinelo,
lá é tudo muito estranho
as mães brincam de boneca
os filhos que as chamam para o banho

No oitavo mundo paralelo
os chinelos perdem as pessoas
e não as pessoas que perdem os chinelos

Lá, o vento é colorido
toda terra é macia
nas casas de família
os cachorros pagam as contas
os donos comem na bacia

Lá só anda na rua quem é louco
os hospícios só para quem é são
os carros trocam de donos
aviões na contra-mão

No oitavo mundo paralelo
as pessoas nascem em caixão
quando morrem, vão para a barriga

No oitavo mundo paralelo
os ponteiros não trabalham em círculo
mas na horizontal
letras compram lotes
em folhas de jornais

lá, cobertas acordam tarde
as luzes dormem com as pessoas apagadas
os sofás assistem filmes
juntinhos, no escuro, com as almofadas

No oitavo mundo paralelo
os terrenos trabalham e dizem:
''vou comprar o dono que eu quero''


Bruno Estevam




Banhos longos

Banhos longos
Sabonetes emendados
movimentos circulares
de espuma
na barriga
voltas longas
e voltas curtas
umbigo ensaboado
com sabonete de frutas
banho longo
cabeça para cima
olhos fechados
água na cara
sem respirar
me afogo.



Bruno Estevam

Fim

Quisera eu
que as coisas
fossem do meu jeito
porém
o fim 
não foi feito 
para ser aceito.




Bruno Estevam

Bateu


Estava ele
Na maciota
manobrando
trabalhando, normalmente
cantando
como todos os dias do ano
até Alcides tirar o pé do freio
num alavanco bruto do motor
Alcides dá no meio!
no meio de outro carro,
parado.
Alcides a mercê
quebrado!
fodido e mal pago!
Alcides, que fiasco
O que aconteceu?
Que merda, Alcides, bateu?
Bateu.
Mas o carro é de quem, Alcides?
Do velho de gravata
De cabelo acaju
Que velho, Alcides?
Que gravata ? Acaju?
Puta que o pariu, Alcides!
Aquele velho, amigo do berê, lembra?
Mas quem é o dono Alcides? Que diabos!
Porra, Alcides. E agora?
Não sei, ué, bateu.






Bruno Estevam